Home Contec Online Porque o BC corta juros, mas você ainda paga 300% no cheque especial?

Porque o BC corta juros, mas você ainda paga 300% no cheque especial?

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O Banco Central baixou novamente a taxa b√°sica de juros (Selic) nesta quarta-feira (7). Mas n√£o espere grandes redu√ß√Ķes nos juros que voc√™ paga no banco. Enquanto a Selic agora √© de 6,75% ano ano, o cheque especial, por exemplo, continuar√° cobrando cerca de 300% ao ano (12% ao m√™s). (T√©o Takar)

Segundo especialistas, a Selic √© respons√°vel por 20% do custo do dinheiro no Brasil. Os 80% restantes s√£o decorr√™ncia de falta de competi√ß√£o, lucro dos bancos, calotes, aus√™ncia de informa√ß√Ķes sobre os bons pagadores e impostos.

N√£o h√° competi√ß√£o entre os bancos no Brasil. Praticamente 90% do setor est√° nas m√£os de cinco institui√ß√Ķes. Por isso, n√£o existe uma preocupa√ß√£o efetiva em reduzir as taxas cobradas

Andrew Storfer, diretor de Economia da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefa)

Leia abaixo por que os juros continuam altos para o consumidor e o que poderia ser feito para as taxas caírem.

Calote é principal vilão, mas está em baixa
O risco de calote é sempre um argumento recorrente dos bancos no Brasil para justificar os juros altos, especialmente no cheque especial e no cartão de crédito. O país ainda se recupera de dois anos seguidos de recessão e alto nível de desemprego.

Tudo isso n√£o √© novidade para ningu√©m. Os bancos sempre foram bastante seletivos na concess√£o de cr√©dito, especialmente nos √ļltimos dois anos, para evitar um salto da inadimpl√™ncia que pudesse prejudicar seus resultados. Tanto foi assim que os lucros dos bancos continuam espetaculares.

Andrew Storfer, da Anefac

Depois de um longo período em alta, a inadimplência mostrou sinais de melhora em 2017. Segundo o Banco Central, as contas com mais de 90 dias de atraso representavam 3,2% do total no fim do ano passado, contra 3,7% no fim de 2016.

“Os bancos perceberam essa melhora, tanto que reduziram as provis√Ķes de cr√©dito [reservas para calotes] em seus √ļltimos balan√ßos. Se o risco de calote est√° menor, os juros para o consumidor poderiam cair mais”, diz Storfer.

Bancos não sabem se você paga as contas em dia
A falta de informa√ß√Ķes p√ļblicas e detalhadas sobre o comportamento financeiro do consumidor tamb√©m √© apontada como uma das raz√Ķes para os juros altos no Brasil. “No Brasil, s√≥ temos o cadastro negativo”, diz Bruno Poljokan, diretor da plataforma de empr√©stimo on-line Just.

Imagine que você sempre pagou suas contas em dia. Mas, por algum motivo, ficou inadimplente por causa de uma conta. Você só aparecerá no sistema por causa dessa conta atrasada. Todo o seu histórico de bom pagador é ignorado.

Bruno Poljokan, diretor da Just

Ele afirma que, em geral, apenas o banco onde o consumidor tem uma conta possui um retrato fiel do seu perfil de crédito.

“Como as informa√ß√Ķes de cr√©dito s√£o limitadas e o setor banc√°rio √© muito concentrado no pa√≠s, o consumidor acaba conseguindo empr√©stimo apenas no banco em que tem conta. Como o banco sabe que voc√™ n√£o tem muitas op√ß√Ķes, ele cobra uma taxa alta. Se voc√™ procurar outro banco, provavelmente a taxa ser√° ainda mais alta, porque ele n√£o conhece o seu perfil de cr√©dito”, diz.

Segundo ele, a ado√ß√£o de um sistema de cadastro positivo, que re√ļne todas as informa√ß√Ķes financeiras do consumidor, ajudaria a baratear o cr√©dito. O sistema j√° √© adotado nos EUA e em mais de 120 pa√≠ses. No Brasil, o cadastro positivo √© tema de um projeto de lei complementar em discuss√£o na C√Ęmara.

“Nos Estados Unidos, por exemplo, voc√™ tem o Fico Score, que √© um sistema de pontua√ß√£o que classifica os consumidores conforme o seu risco de cr√©dito. Isso beneficia principalmente os bons pagadores, que conseguem obter taxas menores nos empr√©stimos”, diz o diretor da Just.

Na Europa, os bancos tamb√©m est√£o implementando um sistema de plataforma aberta de cr√©dito (“open banking”). Com a autoriza√ß√£o do consumidor, os bancos repassam para essa plataforma todas as informa√ß√Ķes de cr√©dito, que ficam dispon√≠veis para qualquer empresa.

Falta competição entre os bancos
A concentra√ß√£o banc√°ria no Brasil tamb√©m inibe uma queda mais acentuada dos juros cobrados do consumidor. Os cinco maiores bancos ‚ÄďBanco do Brasil, Bradesco, Caixa Econ√īmica Federal, Ita√ļ Unibanco e Santander‚Äď respondem por 90% das opera√ß√Ķes de cr√©dito no pa√≠s.

Cerca de 20% da taxa cobrada pelo banco é destinada exclusivamente para o lucro. Se houvesse uma competição maior de mercado, os bancos teriam que reduzir essa margem de lucro para poder oferecer taxas de empréstimo melhores.

Bruno Poljokan, da Just

Andrew Storfer, da Anefac, diz que, atualmente, grande parte do lucro dos bancos prov√©m da √°rea de Tesouraria, ou seja, das opera√ß√Ķes pr√≥prias com t√≠tulos p√ļblicos, a√ß√Ķes e outros ativos no mercado financeiro.

“Hoje, a Tesouraria j√° entrega o lucro esperado pelos acionistas dos bancos. Os bancos n√£o est√£o interessados em aumentar a demanda por empr√©stimos. Por isso, eles podem praticar a taxa de juros que for mais conveniente, com uma margem de lucro alta”, afirma Storfer.

No entanto, o executivo da Anefac diz que o ganho f√°cil dos bancos com opera√ß√Ķes de Tesouraria est√° com os dias contados. “Em algum momento, a queda da Selic tamb√©m vai afetar os ganhos de Tesouraria. Ent√£o, os bancos ter√£o que buscar outras fontes de receita para manter o lucro elevado.”

Quando esse momento chegar, diz Storfer, os bancos vão ter que se ajustar à nova realidade da economia, oferecendo taxas de juros menores para gerar demanda por crédito e viabilizar o crescimento da economia.

Bancos cobram ‘margem de risco’ para imprevistos
Normalmente, os bancos embutem nos juros uma margem de seguran√ßa para eventuais flutua√ß√Ķes da Selic ou para instabilidades da economia. Andrew Storfer, da Anefac, afirma que o comportamento dos juros est√° mais previs√≠vel, uma vez que a infla√ß√£o est√° sob controle e a economia, em processo de recupera√ß√£o. “No cen√°rio atual, isso n√£o faz muito sentido. Os juros na ponta [para o consumidor] poderiam cair mais”, afirma o diretor de Economia da Anefac.

Enquanto a Selic caiu pela metade, saindo de 14,5% ao ano no fim de 2016 para 6,75% agora, a taxa m√©dia de juros de todas as opera√ß√Ķes de cr√©dito no pa√≠s recuou apenas 6,6 pontos percentuais ao longo do ano passado, de 32,2% para 25,6% ao ano, conforme dados do Banco Central.

O juro real, que corresponde ao juro b√°sico descontada a infla√ß√£o, est√° hoje na casa dos 3,75% ao ano, uma das menores taxas j√° vistas no pa√≠s. “H√° pouco mais de dois anos, o juro real estava em 6% ao ano. Mas, agora, n√£o h√° muito espa√ßo para ele continuar caindo. A tend√™ncia √© que fique em torno dos 3% a 3,5% nos pr√≥ximos anos”, prev√™ Storfer.

Governo também tem parcela de culpa
O governo tamb√©m tem sua parcela de culpa nos juros altos cobrados nos empr√©stimos. O Brasil tem uma das maiores taxas de compuls√≥rio do mundo –uma parte de todo o dinheiro captado pelos bancos deve ser obrigatoriamente depositada no BC e n√£o pode ser usada.

No fim de 2017, o BC reduziu ligeiramente o compuls√≥rio, o que permitiu os bancos ampliar a oferta de cr√©dito em R$ 6,5 bilh√Ķes. A al√≠quota de reten√ß√£o sobre os dep√≥sitos √† vista (feitos em conta corrente) recuou de 45% para 40%. Nos dep√≥sitos a prazo (um investimento em CDB, por exemplo), o compuls√≥rio caiu de 36% para 34%. O compuls√≥rio sobre dep√≥sitos na poupan√ßa foi mantido em 30%.

No resto do mundo, a média das taxas de compulsório é de 3% para depósitos à vista, 2% para depósitos a prazo e nenhum compulsório sobre a poupança.

Na prática, isso quer dizer que os bancos brasileiros têm que captar três vezes mais recursos para emprestar o mesmo volume de dinheiro que bancos de outros paíse.

Murilo Portugal, presidente da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban)

A afirmação foi feita em uma entrevista concedida em outubro do ano passado para tratar do assunto.

Al√©m da redu√ß√£o do compuls√≥rio, os especialistas defendem que o governo diminua a carga tribut√°ria incidente sobre os financiamentos, particularmente, o Imposto sobre Opera√ß√Ķes Financeiras (IOF). “O ideal seria que o imposto n√£o incidisse sobre quem toma o empr√©stimo, para estimular a demanda por cr√©dito”, diz Storfer.

Consumidor n√£o sabe bem o que est√° fazendo
A falta de educa√ß√£o financeira da popula√ß√£o tamb√©m √© apontada pelos especialistas como um fator que colabora para os juros “salgados”. Em alguns casos, os bancos podem direcionar intencionalmente os clientes a tomar empr√©stimos caros, como o cheque especial.

“As pessoas ainda n√£o est√£o acostumadas a pesquisar taxas de juros, embora voc√™ j√° tenha hoje v√°rias alternativas fora dos grandes bancos para pegar empr√©stimo mais barato”, afirma Bruno Poljokan, diretor da plataforma de cr√©dito on-line Just.

Muita gente pega crédito errado ou até de forma inconsciente. A pessoa olha o extrato e vê: saldo de R$ 1.000 e disponível de R$ 2.000. Ela acha realmente que possui R$ 2.000 na conta e acaba entrando no cheque especial. Tem muito consumidor que não entende que aqueles R$ 1.000 a mais, na verdade, é um dinheiro que o banco está emprestando. Não sabe que vai pagar um juro alto em cima daqueles R$ 1.000 extras.

Andrew Storfer, diretor de Economia da Anefac

Pesquisa feita pelo aplicativo de orientação financeira GuiaBolso só com usuários endividados mostrou que 40% deles estavam usando o cheque especial ou rotativo do cartão de crédito, mas consideravam que não tinham dívidas. Entre os que admitiam estar endividados, apenas 15% sabiam que taxa de juros estavam pagando.

“Essa √© uma realidade de muitos brasileiros. As pessoas n√£o enxergam o cheque especial ou o rotativo do cart√£o como d√≠vidas. S√£o empr√©stimos car√≠ssimos, que cobram mais de 300% ao ano, e as pessoas muitas vezes parecem n√£o se dar conta disso”, diz Poljokan.

Infelizmente, muitas pessoas agem com ingenuidade: ‘Daqui a pouco eu consigo pagar. Vai entrar um dinheirinho logo’. √Č assim que elas pensam. Ficar dois ou tr√™s meses no cheque especial deveria ser algo impens√°vel.

Andrew Storfer, diretor de Economia da Anefac

O diretor de Economia da Anefac afirma que o cheque especial sempre ser√° a op√ß√£o de cr√©dito mais cara oferecida pelo banco. “O cheque especial est√° dispon√≠vel imediatamente. Sem qualquer an√°lise de cr√©dito. O banco se baseia no seu hist√≥rico para liberar o limite. Mas ele n√£o sabe qual √© a sua realidade hoje, se voc√™ perdeu o emprego, por exemplo. Por isso, ele embute uma margem de seguran√ßa muito alta porque, em tese, o risco de calote √© grande.”

Fonte: UOL

Diretoria Executiva da CONTEC

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