A mudança no perfil etário da população brasileira deixou de ser uma previsão estatística para se tornar o maior desafio socioeconômico enfrentado por governos e famílias hoje. Durante o Rumos 2026, evento realizado pelo Valor Econômico, em São Paulo, especialistas debateram como o aumento da longevidade exige uma reestruturação profunda do mercado de trabalho, da gestão de saúde suplementar e das políticas de assistência.
O sociólogo e demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, diretor da consultoria Decifra, destacou que o Brasil vive uma conquista em termos de direitos humanos: a expectativa de vida triplicou em um século, saltando de 25 para mais de 75 anos.
No entanto, o país corre o risco de ficar preso na “armadilha da renda média” por ter aproveitado apenas parcialmente o seu bônus demográfico. Com o fechamento dessa janela de oportunidade, Alves defende que a solução reside na inclusão produtiva da população acima de 50 anos e no fomento à “economia prateada”.
— O modelo em que a criança estuda, o adulto trabalha e o idoso não faz nada não tem mais solução — afirmou o sociólogo.
Diversidade etária
Para ele, é vital combater o etarismo e promover a diversidade etária nas empresas para garantir a sustentabilidade econômica, afirmou em painel mediado por Catherine Vieira, editora executiva do Valor.
No setor de saúde, a longevidade é celebrada como uma conquista tecnológica, mas impõe pressões severas sobre os custos e a operação. Bruno Sobral, diretor-executivo da FenaSaúde, que reúne as grandes empresas do setor no país, alertou para a escassez de profissionais especializados, como geriatras e enfermeiros treinados, e para a falta de integração no atendimento.
Segundo Sobral, o sistema atual muitas vezes deixa o idoso “perdido” entre especialistas, sem uma coordenação eficiente que garanta o tratamento certo no momento adequado.
Ele também apontou que os reajustes de planos de saúde para a faixa dos 59 anos ou mais tentam equilibrar um sistema de subsídio cruzado que se torna cada vez mais difícil de sustentar à medida que a base de jovens diminui:
— Não se trata apenas de custo, mas de dar visibilidade ao problema e criar condições para que as pessoas enfrentem essa nova realidade com qualidade — ponderou ele.
Mais peso para mulheres
A questão sobre quem cuidará dos idosos foi o foco de Mônica Perracini, pesquisadora da Universidade Cidade de São Paulo (UNICID). Ela pontuou que entre 76% e 80% do cuidado global com idosos é realizado por mulheres, muitas vezes de forma não remunerada, o que gera uma injustiça social e afasta essa força de trabalho do mercado formal.
Mônica destacou a urgência de regulamentar o Plano Nacional de Cuidados e criar serviços de apoio, como o respite care (cuidado de respiro), para que os cuidadores familiares possam preservar sua saúde mental. De acordo com a pesquisadora, estima-se que o trabalho de cuidado informal movimenta cerca de US$ 11 trilhões anualmente no mundo, ou 9% do PIB global.
O consenso entre os especialistas é que o envelhecimento populacional não deve ser encarado como um “apocalipse demográfico”, mas como uma realidade que exige planejamento intersetorial imediato. Os painelistas enfatizaram que soluções que passam por educação, produtividade e urbanismo não se constroem da noite para o dia, e que o Brasil precisa trazer esse tema para o centro da agenda política antes que a janela de oportunidade se feche definitivamente.
O evento teve patrocínio de BTG Pactual, Febraban, FenaSaúde, Gerdau e Philip Morris Brasil; e apoio de Assaí e Embraer.
Fonte: O Globo
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