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O Potencial Humano na Era da Inteligência Artificial: em Busca de um SUS Mais Justo

A tecnologia avança a passos largos, mas a liderança humana é que determinará seus rumos

postado Maria Clara

A inteligência artificial, mais que um modismo tecnológico, é uma ferramenta que pode inaugurar um novo capítulo na saúde pública brasileira. Para realizar a transformação que desejamos, porém, precisamos de lideranças capazes de conduzi-la na direção da equidade. O Brasil investe cerca de US$ 1.700 por pessoa ao ano em saúde, menos de um terço do que aplicam as principais economias desenvolvidas, embora o setor represente perto de 10% do PIB. Esse descompasso cria um sistema permanentemente pressionado, que tem de gerar mais valor com recursos limitados. Nesse cenário, a IA traz possibilidades concretas de reorganizar prioridades e de ampliar a capacidade de cuidado do SUS.

Temos avançado em mutirões e ações emergenciais que aliviam parte da demanda reprimida. São iniciativas importantes, que dão resposta imediata a milhões de brasileiros, mas estão longe de ser uma estratégia de médio e longo prazo: resolvem a dor do presente, mas não impedem que o passivo se acumule novamente. Sem um projeto racional, continuaremos “enxugando gelo”, ou seja, correndo atrás de filas que se renovam e degapsestruturais que se repetem, enquanto as desigualdades se perpetuam como parte do sistema. O SUS tem como grande trunfo a universalidade, mas, como sabemos, há inúmeros gargalos que dificultam ou impedem a efetiva concretização desse propósito. Hoje temos tecnologia que pode – e deve – ser usada para, de fato, promover equidade. Para começar, a IA pode ajudar a reduzir filas, organizando o fluxo de exames e consultas, acelerando diagnósticos, antecipando riscos e orientando condutas, mas seu uso vai muito além.

Por um lado, os sistemas inteligentes podem ser decisivos na vigilância epidemiológica, identificando padrões de surtos antes que se tornem crises e apoiando campanhas de vacinação;  por outro, podem revolucionar a gestão hospitalar, administrando
com eficiência estoques de medicamentos, leitos e equipamentos, integrando informações dispersas e evitando o desperdício dos já escassos recursos. Em um país imenso como o nosso, a tecnologia também pode dar suporte à telemedicina inteligente, estendendo o alcance do cuidado para áreas remotas e reduzindo desigualdades regionais. Esses avanços permitem que o sistema seja mais preventivo e menos reativo.

Todas essas possibilidades postas diante de nós pela tecnologia são extraordinárias, mas só se materializam quando há vontade política. O funcionamento do sistema de saúde brasileiro ainda é desarticulado, com serviços que não se comunicam bem entre si, o que dificulta a continuidade do cuidado. Essa é uma das causas de muitas decisões serem tomadas apenas para resolver problemas imediatos, sem o devido planejamento. Além disso, existe no país uma cultura de valorização do procedimento técnico, como exames e protocolos, em detrimento da experiência do paciente. Deixa-se em segundo plano a qualidade da relação humana no atendimento, que está na essência da medicina. Isso também pode mudar com a tecnologia: ao automatizar tarefas repetitivas, a IA libera tempo clínico para a escuta, para o acolhimento, enfim, para o vínculo humano.

A política pública, por sua vez, oscila entre improvisos e contingências. Se quisermos aproveitar o potencial humano que a IA oferece, teremos de escolher dirigentes que enxerguem a saúde como um projeto de Estado, não como um sistema de resposta episódica a crises sucessivas. É nesse ponto que a formação de profissionais e a pesquisa acadêmica nacional se tornam estratégicas: sem capacitação e desenvolvimento de soluções adaptadas à realidade brasileira, a promessa da IA corre o risco de se perder em iniciativas isoladas.

Equidade, que é nosso objetivo maior, é fruto de escolhas. Países que ampliaram a justiça social na saúde compreenderam que eficiência e humanidade são forças complementares. Sistemas que utilizam IA atendem mais e melhor, priorizando quem mais
precisa e prevenindo problemas antes que se tornem urgências. Essa nova realidade, contudo, impõe novos desafios: não podemos negligenciar a criação de políticas de regulação ética para proteger dados sensíveis e definir limites claros para a automação. Essa salvaguarda é fundamental para que os objetivos sejam alcançados.

Enfim, o Brasil tem diante de si uma encruzilhada: ou continuamos apagando incêndios, ou inauguramos um ciclo de visão estrutural que permita ao SUS evoluir para um sistema preventivo, integrado e orientado ao valor. A inteligência artificial não resolve tudo, mas cria as condições para que o cuidado deixe de ser um esforço de sobrevivência e se torne um instrumento de dignidade.

O futuro da saúde brasileira dependerá menos da velocidade da tecnologia e mais da coragem das lideranças. Inovar, hoje, é entender que o cuidado universal também precisa ser equitativo. A IA, guiada por um propósito claro, pode contribuir para que o SUS cumpra sua promessa mais profunda: cuidar de todos, com qualidade e justiça.

Claudio Lottenberg é mestre e doutor em oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp). É presidente do conselho do Einstein Hospital Israelita e do Instituto Coalizão Saúde.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Fonte: Forbes

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