O Brasil reúne as condições para se tornar um dos principais polos de infraestrutura de inteligência artificial (IA) da América Latina, mas ainda precisa avançar na definição de políticas públicas e incentivos para atrair investimentos em data centers. “O Brasil tem toda a infraestrutura necessária para receber esses investimentos. O que acaba gerando dúvida é a falta de definição sobre alguns incentivos que estavam sendo discutidos para o setor”, disse ontem ao Valor Marcio Aguiar, diretor executivo da Nvidia para a região. Ele participa do Web Summit Rio, evento de inovação e tecnologia que começou na segunda-feira e vai até quinta-feira (11) na cidade.
Segundo Aguiar, o país segue sendo referência econômica na região, mas perdeu parte do impulso inicial para atrair aportes em infraestrutura de processamento de dados: “O país está tomando medidas que podem levá-lo a outro patamar. Mas existe uma oportunidade que poderia ter sido aproveitada de forma mais acelerada.”
A discussão ganhou relevância diante da corrida global para instalação de data centers capazes de suportar aplicações de inteligência artificial. Em 2025, o governo brasileiro editou uma medida provisória criando o Redata, um regime especial de tributação para datacenters, mas o projeto não andou no Congresso Nacional.
Bruno Lewicki, chefe de políticas públicas da OpenAI para a América Latina, e Ronaldo Lemos, membro do Oversight Board e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), também presentes ontem em painel do Web Summit, avaliaram que o Brasil precisa ir além da discussão regulatória sobre IA. “O maior risco para o Brasil é não desenvolver capacidades próprias e se tornar dependente de tecnologias externas”, afirmou Lemos. Lewicki afirmou que o debate sobre IA não deve se restringir à mitigação de riscos e à definição de obrigações para empresas. Segundo ele, governos também precisam discutir políticas públicas voltadas aos impactos da tecnologia sobre produtividade, emprego e educação.
O especialista também criticou a proposta de regulamentação da inteligência artificial em discussão no Congresso. O PL 2.338/2023, que institui o marco legal para o desenvolvimento e uso da tecnologia foi aprovado pelo Senado e tramita em regime de urgência na Câmara. A versão aprovada pelo Senado, disse, foi inspirada em modelos europeus que passaram por revisões e não reflete necessariamente as necessidades brasileiras: “Somos o país que fez o Marco Civil da Internet. Não precisamos copiar ninguém”, disse. Lewicki afirmou que o debate sobre IA não deve se restringir à mitigação de riscos e à definição de obrigações para empresas. Segundo ele, governos também precisam discutir políticas públicas voltadas aos impactos da tecnologia sobre produtividade, emprego e educação.
Para Aguiar, da Nvidia, a consequência da demora em ampliar a capacidade local não é apenas tecnológica, mas também econômica: “O ideal seria processar esses dados no país. Isso gera milhares de empregos. Quando essa infraestrutura fica em outros mercados, o Brasil perde parte desse potencial”, afirmou.
A Nvidia tem defendido globalmente o conceito de “soberania de IA”, segundo o qual países precisam desenvolver capacidade própria de processamento e armazenamento de dados para capturar os benefícios econômicos e estratégicos da tecnologia.
Para Aguiar, o risco para as nações que não avançarem nessa agenda é perder oportunidades de melhorar serviços públicos e aumentar a competitividade. Ele cita áreas como saúde, segurança pública e atendimento ao cidadão entre as que podem ser transformadas pelo uso intensivo de dados e inteligência artificial: “O Brasil possui plataformas digitais muito avançadas, como o gov.br. O próximo passo é usar esses dados de forma mais inteligente para melhorar a prestação de serviços e antecipar necessidades da população.”
O executivo destacou ainda que a maior limitação para a expansão do setor não é mais a capacidade computacional, mas a disponibilidade de energia para sustentar novos data centers. Empresas de tecnologia, disse, têm trabalhado para tornar chips e softwares mais eficientes, reduzindo o consumo energético e distribuindo parte do processamento para dispositivos e estruturas menores.
Outro desafio apontado pela Nvidia é a escassez de profissionais qualificados: “Hoje nosso principal concorrente é a falta de mão de obra especializada para aproveitar tudo o que foi desenvolvido”, afirmou.
Outra área em que o Brasil tem potencial de crescimento é a da computação em nuvem, disse Cleber Morais, diretor da AWS (Amazon Web Services) no Brasil. Com o crescimento da tecnologia de nuvem, há vastas oportunidades para a empresa em setores que vão desde tecnologia a comércio, indústria e serviços. “Hoje, dentro de departamento de finanças, se pode trabalhar com agentes de IA que entendem do ‘core’ [business] financeiro, sem equipe de TI”, exemplificou. Com isso em vista, a AWS, que investiu US$ 3,8 bilhões entre 2011 e 2023 no país, prevê investir no Brasil mais US$ 5,6 bilhões entre 2024 e 2034.
Fonte: Valor Econômico
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