O governo argentino enfrenta nesta quinta-feira (19) a quarta greve geral de sua gestão, no dia em que a Câmara dos Deputados debaterá uma polêmica reforma trabalhista impulsionada pelo presidente Javier Milei, já aprovada pelo Senado na semana passada.
A paralisação, que começou às 0h01 locais (mesmo horário em Brasília) e durará 24 horas, foi convocada pela principal central sindical do país, que considera que as mudanças propostas pelo governo são “regressivas”.
Ao todo, 13 sindicatos anunciaram que participariam da greve em oposição à reforma trabalhista na Câmara dos Deputados.
O metrô, os trens metropolitanos e parte das linhas de ônibus não funcionam por 24 horas. As empresas aéreas Aerolíneas Argentinas e Jet Smart confirmaram o cancelamento de mais de 350 voos, principalmente domésticos.
“Nossa posição tem sido clara, pública e sustentada: sempre nos opomos à reforma trabalhista porque ela representa um retrocesso nos direitos, promove a precariedade das condições de trabalho e busca enfraquecer a negociação coletiva em nossa atividade, além de limitar o direito à greve”, diz nota dos sindicatos dos profissionais de serviços aeronáuticos.
Repartições públicas e agências bancárias também não devem abrir. “Vamos defender os salários, os postos de trabalho e as condições laborais do setor financeiro”, disse, em nota, a associação dos bancários.
A paralisação ocorre em um contexto econômico que apresenta sinais de queda na atividade industrial, com mais de 21 mil empresas fechadas nos últimos dois anos e a perda de cerca de 300 mil postos de trabalho, segundo fontes sindicais.
O projeto que será debatido pelos deputados estende a jornada de trabalho para 12 horas, reduz indenizações, permite pagamentos em bens ou serviços e limita o direito de greve, entre outros pontos.
O governo garante que as mudanças ajudarão a reduzir a informalidade, que atinge mais de 40% do mercado de trabalho, e a criar empregos ao diminuir a carga tributária para os empregadores.
Para avançar na discussão na Câmara dos Deputados, o partido do governo teve de eliminar do texto aprovado no Senado um polêmico artigo que reduzia o salário para entre 50% e 75% durante as licenças médicas.
O mais recente retrato do desemprego enfrentado pelos argentinos é o fechamento da Fate, principal fábrica de pneus do país, e deve demitir mais de 900 trabalhadores, alegando perda de competitividade devido à abertura indiscriminada das importações.
“Queremos dizer ao governo que o povo não lhe deu o voto para que lhe tire direitos”, disse Cristian Jerónimo, um dos secretários-gerais da CGT (Confederação Geral do Trabalho), que antecipou que a greve geral será “contundente”.
Os principais sindicatos do transporte de passageiros aderiram inicialmente ao protesto.
Também aderiram os trabalhadores portuários, que paralisam importantes terminais como o de Rosário, um dos maiores exportadores de produtos agrícolas do mundo.
A sessão na Câmara dos Deputados está prevista para começar às 14h desta quinta-feira.
“RISCO”
Embora a greve da CGT vá ocorrer sem mobilização, diferentes sindicatos e agrupações políticas anunciaram que marcharão até a Praça do Congresso, no centro de Buenos Aires.
Na semana passada, quando o projeto de reforma trabalhista foi debatido pelo Senado, milhares de pessoas se reuniram em manifestações que terminaram em confrontos com a polícia e cerca de 30 detidos.
O governo divulgou na terça-feira (17) cum comunicado incomum, no qual advertiu a imprensa sobre o “risco” de cobrir os protestos e estabeleceu uma “zona exclusiva” em uma das ruas laterais da praça para a instalação dos meios de comunicação.
“Diante de fatos de violência, nossas forças atuarão”, disse o Ministério da Segurança, que recomendou aos jornalistas “evitar posicionar-se entre eventuais focos de violência e o pessoal das forças de segurança”.
Fonte: Folha
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