O Brasil bateu, pela segunda vez, o recorde com o maior número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais em uma década. Dados do Ministério da Previdência Social, obtidos com exclusividade pelo g1, mostram que o número de licenças voltou a crescer em 2025 e escancara um cenário de adoecimento cada vez mais amplo entre os trabalhadores do país.
No ano passado, o g1 revelou com exclusividade que o Brasil já vivia uma crise de saúde mental, com o maior número de afastamentos por esse motivo em 10 anos em 2024.
Em 2025, o cenário não só se repete como se agrava: mais de meio milhão de licenças foram concedidas por transtornos mentais, estabelecendo um novo recorde e ampliando o peso da saúde mental no total de afastamentos. Ao todo o país teve 4 milhões de licenças do trabalho.
Em 2025, os afastamentos por ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior e, somados, já formam o segundo maior motivo de afastamento do trabalho no Brasil, atrás apenas das doenças da coluna.
À época do primeiro recorde, o governo discutia mudanças na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passaria a incluir a saúde mental entre os itens fiscalizados no ambiente de trabalho. Após pressão das empresas, porém, a medida foi adiada.
E isso tem um custo alto para os cofres públicos. Só com o custo para o INSS em afastamentos, estima-se que o valor seja perto de R$ 3,5 bilhões.
Especialistas apontam que, sem mudanças estruturais, o avanço dos transtornos mentais tende a se manter, impulsionado por vínculos precários, jornadas longas e instabilidade profissional.
Nesta reportagem, você vai ler:
O raio-x do afastamento
Dados da Previdência Social mostram que foram concedidos mais de 4,1 milhões de afastamentos do trabalho por incapacidade temporária em 2025. O número é o maior em cinco anos e representa um aumento de 17,1% em relação a 2024.
- ATENÇÃO: Os dados abaixo se referem ao número de afastamentos, e não ao número de trabalhadores. Uma mesma pessoa pode ter mais de uma licença ao longo do ano, e cada afastamento é contabilizado separadamente.
As dores nas costas e os problemas na coluna lideraram as concessões de benefícios no país. Em 2025, a dorsalgia (dor nas costas) foi a principal causa de afastamento de licença, com 237.113 pedidos concedidos, mantendo-se no topo do ranking.
Na sequência aparecem os outros transtornos de discos intervertebrais, como a hérnia de disco, responsáveis por 208.727 afastamentos.

Mas, se a dor física sempre esteve ocupando os maiores índices na lista, desde o ano passado, o mercado de trabalho vem enfrentando uma nova realidade: os transtornos mentais vêm aparecendo no topo entre as causas de afastamento.
A ansiedade levou a 166.489 afastamentos e a depressão a 126.608. Se somadas as doenças de saúde mental, elas já ultrapassam causas que sempre foram comuns de afastamento, como fratura de tornozelo.

- A licença por incapacidade temporária é concedida pelo INSS quando o trabalhador precisa se afastar do trabalho por mais de 15 dias, após passar por perícia médica.
O recorde de afastamento por transtornos mentais no Brasil
Os dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos do trabalho por transtornos mentais atingiram, em 2025, o maior patamar da série recente – superando até mesmo o recorde de 2024.
Somente em 2025, mais de 546.254 afastamentos do trabalho foram por questões de saúde mental. Isso representa um aumento de 15% em relação ao ano passado.
A maior parte desses afastamentos está concentrada em dois diagnósticos: ansiedade e depressão. Os transtornos ansiosos lideram o ranking, com 166.489 licenças concedidas em 2025, seguidos pelos episódios depressivos, que somaram 126.608 afastamentos.
Ou seja, o país tem, de novo, um cenário sem precedentes: o número de afastamentos em 2025 por saúde mental é o maior em uma década.
A lista feita pelo Ministério da Previdência considera as doenças que mais geraram concessões de benefício. Entre elas, também estão: transtorno bipolar, dependência química, estresse grave, esquizofrenia e alcoolismo.
Comparado com o último ano, todas elas tiveram alta.

E por que isso está acontecendo?
Os transtornos mentais são multifatoriais e não há uma explicação única para o que está acontecendo.
No entanto, depois de dois anos em recorde, com números sem precedentes, os especialistas apontam que a saúde do trabalhador vem sendo afetada por transformações que passam pelo modo de vida e organização em sociedade, mas, sobretudo, pelas mudanças no mercado de trabalho.
A pandemia mudou o cenário para o mercado de trabalho e, ainda que a informalidade e desemprego tenham recuado no ano passado, os especialistas explicam que há uma cicatriz.
Segundo os psiquiatras e analistas ouvidos pelo g1, situações como vínculos precários, jornadas longas e com pressão constroem um mercado que empurra as pessoas para um estresse crônico.
As pessoas estão submetidas a vínculos precários, jornadas longas, pressão por mudanças na tecnologia. O cenário atual do mercado de trabalho está empurrando as pessoas para um estresse crônico e se traduzindo no que estamos vendo. É estrutural. — Arthur Danila, psiquiatra e Coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida (PROMEV) da USP.
O médico lembra ainda que os números são só a ponta de um problema maior. Já que o afastamento inclui apenas aqueles profissionais registrados e que se afastaram pelo INSS – licenças menores, ainda que por essas doenças, não são consideradas.
Thatiana Cappellano, mestre em ciências sociais e especialista no mercado de trabalho, reforça que o mercado vem se transformando e, consequentemente, afetando quem atua e depende dele. Ela explica que o cenário reflete um movimento de anos e que deve permanecer nos próximos anos, caso nada seja feito.
Os diagnósticos de ansiedade e depressão costumam ser demorados, o que indica que esse adoecimento vem se arrastando há muito tempo e só agora está aparecendo com mais força. Trata‑se de uma força de trabalho já desgastada.— Thatiana Cappellano, mestre em ciências sociais e especialista no mercado de trabalho.
O médico psiquiatra Wagner Gattaz, especialista em saúde mental no ambiente de trabalho, explica que a questão não é mais só de trabalho ou só de saúde, de forma isolada, e que são necessárias medidas mais duras para transformar esse cenário.
- O psiquiatra atua em uma empresa de consultoria que analisou mais de 150 mil trabalhadores para analisar a prevalência de doenças de saúde mental e o custo aos empregadores. Eles descobriram que as doenças representam um custo de 6% do total da folha de pagamento. Em algumas empresas, isso representa milhões.
“É preciso que a doença mental não seja o vilão da história. Um dos estigmas é que é fingimento, que as pessoas estão aumentando sua dor. Como psiquiatra, preciso dizer, é difícil simular um quadro de sofrimento. E isso é tão grave que estamos vendo o aumento das taxas de suicídio no país”, explica Gattaz.
O INSS não informou o quanto custou ao país essa crise, mas com base nos dados de 2024, as pessoas passaram em média três meses afastadas, recebendo cerca de R$ 2.140 por mês.
Considerando esses valores, o impacto financeiro aos cofres públicos pode ter chegado a R$ 3,5 bilhões.
O cenário por estado
Em números absolutos, os estados mais populosos concentram a maior parte das licenças concedidas em 2025, mas a análise proporcional à população revela um cenário mais complexo, com estados menores apresentando taxas mais altas de afastamento por saúde mental.
