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Estudo aponta relação entre teletrabalho e pressão por salários

postado Assessoria Sarah

Estudo de economistas americanos mostra que aumento do trabalho de casa pós-pandemia nos Estados Unidos, pelo maior conforto e comodidade que traz, reduz pressões por aumento de salários.

A elevação da inflação nos Estados Unidos e em outros países ricos para níveis que não eram observados desde a década de 70 acendeu o alarme para a possibilidade de que, mais que um surto transitório, haja risco atualmente de uma nova era de inflação bem mais alta.

Um dos maiores focos quando se analisa esse problema é o mercado de trabalho, já que a espiral preços-salários é reconhecidamente um dos grandes combustíveis de inflações mais persistentes.

Nos Estados Unidos, os indicadores tanto pelo lado da demanda quanto da oferta de emprego estão extremamente aquecidos, o que em tese reforça as chances de ocorrência da temida espiral.

No entanto, os salários não estão conseguindo acompanhar a alta dos preços, que chegou a 9% em 12 meses, na economia americana.

Como consta do recente paper “A mudança para o trabalho remoto reduz as pressões de alta dos salários (a tradução é da coluna)”, do NBER, uma das principais instituições de pesquisa econômica nos Estados Unidos, nos 12 meses até maio de 2022 os salários dos americanos recuaram 3% em termos reais, levando em consideração a inflação ao consumidor.

O estudo, de diversos autores, tem como ponto central mostrar que o grande aumento do trabalho remoto nos Estados Unidos a partir da pandemia, por ser valorizado em termos de qualidade de vida por parte de quem está nesse regime, levou a uma menor pressão por aumentos de salários. O que, caso correto, é uma boa notícia em relação ao risco da espiral preços-salários.

Esse efeito de melhora de qualidade de vida associado ao trabalho remoto, relativamente ao presencial, é chamado pelos autores de “valor amenidade” (tradução de “amenity value”).

Os autores chamam a atenção para o fato de que o celebrado economista Olivier Blanchard aponta justamente como potencial fonte de pressão inflacionária nos Estados Unidos à frente – tornando mais difícil para o Fed, BC dos EUA, trazer a inflação para a meta em torno de 2% sem provocar recessão significativa – o fato de que os trabalhadores vão correr atrás dessa perda real nos seus salários. Mas o valor amenidade pode atenuar esse fator.

O trabalho lista os ganhos do trabalho remoto em termos de mais tempo livre, flexibilidade das horas trabalhadas ao longo do dia, eliminação do estresse do trânsito e mais autonomia individual.

As empresas, por outro lado, em função do aumento de satisfação do empregado, podem potencialmente retê-lo pagando menos do que se não houvesse essa melhora na vida do trabalhador.

Mas os autores argumentam que, como a pandemia foi um evento repentino e de início imaginava-se que haveria uma volta muito maior na direção do nível anterior de trabalho presencial, há uma defasagem em relação aos ganhos de “amenity-value” e o ajuste dos pacotes de remuneração a essa nova situação por parte das empresas.

O trabalho buscou responder duas perguntas. A primeira é se o valor amenidade do trabalho remoto de fato está reduzindo as pressões por aumento de salários. A segunda é, caso a resposta à primeira seja positiva, qual a medida desse efeito.

A partir daí, os autores utilizam a Pesquisa de Incerteza das Empresas (“Survey of Business Uncertainty”), do Fed de Atlanta e das Universidades de Chicago e Stanford, acrescentando perguntas para investigar aquelas duas questões nas edições de abril e maio deste ano.

Eles encontraram que 38% das empresas aumentaram as oportunidades de trabalho remoto no último ano para moderar as pressões por aumento de salários, e 41% pretendem fazer o mesmo no ano à frente.

Considerando efeito zero nas empresas que responderam que não usaram trabalho remoto para moderar salários, o trabalho chega a um efeito, ponderado por tamanho, de 0,9 ponto porcentual (pp) de moderação salarial em função do valor amenidade nos 12 meses até abril e maio de 2022. E, nos 12 meses à frente, a estimativa é de moderação salarial de 1,1 pp.

Na soma de dois anos, o efeito é de 2pp.

Os setores em que há mais moderação salarial associada ao trabalho remoto são, naturalmente, aqueles em que é mais possível trabalhar remotamente, tais como educação, saúde, serviços sociais, serviços profissionais e outros serviços.

Para as empresas, o uso maior de trabalho remoto também possibilita mais terceirização, subcontratação e jornadas parciais, o que reduz custos.

Para os autores, as três principais consequências do valor amenidade associado ao aumento do trabalho remoto pós-pandemia são a moderação das pressões inflacionárias de curto prazo, a redução da parcela do trabalho na renda nacional e a compressão dos salários relativos (menor desigualdade salarial). Neste último caso, porque há mais trabalho remoto (e valor amenidade e moderação salarial) nos empregos que pagam mais do que nos que pagam menos.

No final, os economistas comentam que não querem negar a observação de Blanchard sobre como será difícil para o Fed baixar a inflação sem uma recessão considerável, mas sim mostrar que o desafio talvez seja um pouco menos assustador do que parece.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/9/2022, segunda-feira.

Fonte: Folha de São Paulo

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