Uma avalanche de recursos de gestores de portfólios globais invadiu a Bolsa de Valores brasileira neste começo de ano, em meio às tensões geopolíticas causadas pelo governo Donald Trump em diferentes partes do mundo.
Reflexo de um movimento de realocação e rotação para fora dos mercados norte-americanos, o fluxo de investidores estrangeiros para a B3 até a última terça-feira (20) somou R$ 8,7 bilhões em volume aportado — quase um terço da soma total de 2025, de R$ 26,87 bilhões. Os dados são da B3 e não contam ainda os aportes dos últimos dois dias, que levaram o Ibovespa a galgar patamares inéditos na história.
Do início de janeiro até esta quinta-feria (22), a valorização da principal praça acionária do país soma mais de 9%, ultrapassando índices como o S&P500, Nasdaq Composite, Euro Stoxx e MSCI Mercados Emergentes. Só nesta semana, o Ibovespa saltou de 164 mil pontos para 175 mil pontos.
Pessoa de costas observa gráfico de linha amarela mostrando variação de ações entre 10h30 e 12h30. Valores e códigos de ações aparecem na parte inferior da tela.
A estratégia de diversificar carteiras para fora dos Estados Unidos começou a ganhar corpo ainda no ano passado, à luz das incertezas geradas pelo governo Donald Trump e o morde-e-assopra do tarifaço para produtos exportados para a maior economia do mundo.
Para escapar da volatilidade dos índices acionários e da desvalorização dos títulos do Tesouro norte-americano, consequência dos cortes de juros pelo Federal Reserve, parte do dinheiro que alimenta o mercado financeiro global foi alocada em mercados emergentes. O Brasil captou uma parte desse montante.
A enxurrada de aporte estrangeiro neste mês teve como estopim a cruzada de Donald Trump na Venezuela, no Irã e, posteriormente, na Groenlândia, ilha ártica da Dinamarca. O desejo do republicano de tomar posse da ilha, com ameaças tarifárias sobre produtos europeus, abalou a relação dos Estados Unidos com a União Europeia e colocou à prova a aliança da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Mais do que isso, transferiu risco para os mercados europeus, antes destino de parte das realocações em curso desde o tarifaço. A incerteza levou ao aumento dos aportes em países sem tanta exposição às tensões.
“Os estrangeiros estão vindo por todos os lados. A preferência majoritária é por ETFs [fundos de índice], porque, em se tratando de emergentes, o estrangeiro não vem para se posicionar no longo prazo, mas para aproveitar momentos pontuais de grande valorização”, diz Adriana Ricci, sócia-fundadora da SHS Investimentos.
“Não quer dizer que ele vem para vender já no dia seguinte. Mas ele não faz aportes em emergentes sem ter a certeza de que vai conseguir sair rapidamente em caso de algum evento adverso.”
Para o estrangeiro, o Brasil se destaca pelo elevado diferencial de juros —a Selic está em 15% ao ano desde junho passado— e pela exposição a commodities, como petróleo e minério de ferro, que costumam ser uma alternativa em meio a conflitos geopolíticos. As companhias brasileiras listadas também estão com preços atrativos.
Mesmo com os sucessivos recordes do Ibovespa, o índice ainda é negociado a múltiplos abaixo da médica histórica.
Além das tensões geopolíticas, o estrangeiro também foi estimulado a diversificar investimentos por causa das movimentações no Japão, que é o maior detentor dos títulos de dívida dos Estados Unidos, e, por esse motivo, “o mundo inteiro tem medo dele”, diz Pedro Moreira, sócio da ONE Investimentos. O país é uma grande fonte de financiamento dos mercados globais.
Nesta semana, a divulgação de um plano fiscal com cortes de impostos por parte do governo japonês desagradou o mercado, que, preocupado com a taxa de natalidade em baixa, teme a capacidade do Japão em continuar sustentando uma das maiores engrenagens do mercado financeiro.
“A percepção de que essa fonte de financiamento global poderia estar em risco elevou também a incerteza sobre a estabilidade dos mercados acionários desenvolvidos. Com essa preocupação em mente, o estrangeiro olhou para o emergente, menos exposto a esses imbróglios, como alternativa. Isso impulsionou a Bolsa brasileira também”, diz Moreira.
A alçada do Ibovespa ao patamar de 175.589 pontos —patamar de fechamento desta quinta— tem levado casas de análise e grandes bancos a recalcularem as projeções para a Bolsa em 2026.
O Morgan Stanley, por exemplo, projetava em novembro que o Ibovespa encerraria o ano em torno de 200 mil pontos. Agora, vê o potencial de alta em até 46% no cenário mais favorável, o que faria o índice chegar a 250 mil pontos.
A projeção leva em conta o provável ciclo de cortes na taxa Selic e a corrida pela Presidência, que deve começar a ganhar tração, segundo Moreira, cerca de seis meses antes do pleito. Ou seja, ao término do primeiro trimestre.
“Tanto o presidente Lula (PT) quanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) somam rejeições altíssimas, abrindo espaço para uma terceira via: Tarcísio de Freitas (Republicanos). Como nada está definido ainda, os investidores, tanto institucionais quanto estrangeiros, não tomam decisões olhando para eleições, mas pelo custo de oportunidade do Brasil. Assim que o cenário estiver claro, eles vão se posicionar,” afirma Moreira.
Quando a eleição começar a se avizinhar, diz Adriana Ricci, da SHS, é provável que o estrangeiro se aproveite da liquidez proporcionada pelos ETFs para fugir da volatilidade e embolsar os ganhos.
“Sempre quando se trata de mercado emergente, alocações de longo prazo não são vistas com bons olhos pelos estrangeiros. Diz-se que emergentes têm problemas políticos, econômicos e fiscais todo ano, mas, em ano eleitoral, se tornam ainda mais sensíveis. Vejo entradas e saídas de estrangeiros com grandes picos, bem como uma liquidação intensa a partir do meio do ano”, diz.
Fonte: Folha
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