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Prematuros: dispositivo que mede maturidade do bebê é incorporado ao SUS

Tecnologia desenvolvida por brasileiros indica quando o recém-nascido precisa de suporte imediato, evitando complicações; muitas grávidas não sabem a idade gestacional do bebê

postado Maria Clara

Uma cena comum em maternidades ou locais isolados pelo Brasil pode esconder um risco difícil de se enxergar. Um bebê nasce pequeno, mesmo com aparência saudável, e profissionais de saúde precisam decidir, naqueles primeiros minutos de vida, se ele precisa de cuidados intensivos ou não. Às vezes, não há informações suficientes para medir os riscos, pois a idade gestacional é incerta.

Agora, uma tecnologia brasileira promete ajudar a reduzir essa dúvida sobre o prematuro, e, com isso, evitar complicações e até mortes. A incorporação do dispositivo foi autorizada no começo de março pelo Ministério da Saúde.

Um dos maiores desafios no cuidado neonatal é que os cenários nem sempre são claros. Recém-nascidos prematuros podem parecer estáveis ao nascer e piorar rapidamente nas horas seguintes, por exemplo, com quadro de complicações respiratórias. Quando isso acontece, muitas vezes o sistema de saúde já está correndo atrás do prejuízo.

O funcionamento do dispositivo é, à primeira vista, simples. O profissional encosta o aparelho na sola do pé do bebê. Um feixe de luz atravessa a pele e, em poucos segundos, retorna ao sensor com informações sobre sua estrutura. Um algoritmo interpreta esses dados e estima a idade gestacional.

Por trás desse gesto rápido existe uma lógica científica sofistica. Durante a gestação, a pele do bebê passa por mudanças contínuas: torna-se mais espessa, mais organizada e menos transparente. Bebês mais prematuros têm a pele mais fina; os que nasceram no tempo certo, mais madura.

O aparelho, portanto, auxilia na antecipação do risco, mas não substitui médicos, nem resolve sozinho os problemas da assistência neonatal.

– O PreemieTest resolve um problema crítico: identifica imaturidade orgânica antes da deterioração clínica, quando o recém-nascido ainda parece estável. Isso antecipa o risco, e antecipar é o que cria a oportunidade de mudar o desfecho. Mas há um ponto que precisa ser dito com clareza: informação, sem ação, não salva vidas – explica o astrofísico Rodney Guimarães, um dos inventores da tecnologia, em conjunto com a médica obstetra e pesquisadora Zilma Reis (UFMG).

Ao reconhecer rapidamente que um bebê é prematuro — mesmo quando ele aparenta estar bem — a equipe consegue agir. Isso permite iniciar sem atraso cuidados essenciais, como suporte respiratório, controle da temperatura e transferência para uma UTI neonatal. Essas medidas, tomadas nas primeiras horas de vida, aumentam as chances de sobrevivência e diminuem o risco de complicações graves.

Sem idade gestacional

 

No Brasil, cerca de metade dos recém-nascidos não tem idade gestacional precisa, principalmente porque muitas gestantes não realizam o ultrassom no início da gravidez, exame considerado o mais confiável para calcular o tempo da gestação.

Sem esse dado, médicos trabalham com estimativas. E, na prática, isso pode significar errar. Um bebê pode parecer apenas pequeno, mas ser prematuro e precisar de suporte imediato. Ou o contrário, pode ser tratado como de alto risco sem necessidade.

— O desconhecimento da idade gestacional cria uma espécie de “cegueira clínica”. Sem ela, o médico pode subestimar a imaturidade pulmonar ou cerebral de um bebê que aparenta ser maior, mas é prematuro – explica a pesquisadora Daniele Soares Marangoni, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Se nas grandes cidades a tecnologia já representa um avanço, em regiões mais isoladas ela pode ter um impacto ainda maior. Em áreas indígenas, ribeirinhas ou remotas, muitas vezes não há ultrassom, histórico confiável da gestação ou profissionais especializados.

Parteira em Novo Aripuanã, no interior do Amazonas, Gessilene Buzaglo relata um salvamento em que o aparelho foi usado. Uma mãe chegou em trabalho de parto de um bebê prematuro. Com a identificação da idade gestacional, houve necessidade de transporte aéreo para Manaus, local onde havia estrutura de UTI para o recém-nascido.

— Fizemos o teste e fiquei feliz porque o médico fez o encaminhamento para Manaus – conta a parteira.

A neurocientista Silvana Alves Pereira, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) atuante dentro da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, destaca que o teste é um indicador de maturidade biológica:

— A luz que avalia a pele pode nos dar pistas sobre o risco de lesões pulmonares e neurológicas futuras.

A professora doutora Roberta Lins Gonçalves, pesquisadora da UFAM, da UFJF e coordenadora do Consórcio APPLE (Acompanhamento de Bebês pelo PreemieTest) destaca que estudos com mais de 5 mil recém-nascidos indicam que a tecnologia melhora a tomada de decisão clínica.

– Ainda não publicamos os resultados gerais, mas observamos que, em todos os lugares onde foi utilizada, mesmo nos hospitais, a tecnologia foi amplamente utilizada, com boa concordância em relação aos métodos tradicionais e impacto positivo na tomada de decisão clínica – diz.

Incorporação ao SUS

 

A incorporação ao SUS prevê que a tecnologia comece a ser oferecida em até 180 dias, a partir da publicação da portaria publicada em 11 de março.

Segundo o Ministério da Saúde, a adoção deve ocorrer primeiros nos Distritos Sanitários de Saúde Indígena, com a distribuição de mais de mil aparelhos para unidades básicas que atendem essas populações.

Cada dispositivo custa cerca de R$ 11 mil e tem baixa necessidade de manutenção.

— A incorporação do Preemie Test no SUS é um marco para nós. É o reconhecimento do potencial de impacto deste equipamento e da seriedade da nossa jornada. Afinal de contas, uma boa ideia não pode se limitar à produção de artigos científicos, teses de doutorado ou patentes. Precisa ganhar vida para gerar impacto de verdade — afirma João Paulo Dutra, presidente do Conselho Consultivo da BirthTech.

O Ministério da Saúde ainda afirma que a tecnologia pode ajudar a reduzir desigualdades no acesso ao cuidado neonatal — mas reforça que o pré-natal adequado continua sendo a principal forma de prevenir a prematuridade.

Fonte: O Globo

www.contec.org.br

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