A tecnologia já interfere na rotina de trabalho, nos mecanismos de produtividade, na avaliação de desempenho e na reorganização das estruturas internas dos bancos. O avanço traz eficiência, mas também acende um alerta para a categoria: sem transparência e sem regulação, os algoritmos podem ampliar demissões, acelerar o fechamento de agências e fragilizar direitos trabalhistas. O tema foi debatido em uma das palestra do 52º Encontro Nacional dos Dirigentes Sindicais, “Impactos da Inteligência Artificial no Direito do Trabalho”, ministrada pela advogada trabalhista, previdenciária e sindical Dra. Maria Eugênia Neves Santana. Ela defendeu que os sindicatos assumam papel central na discussão sobre automação e controle algorítmico no ambiente de trabalho. 
Segundo Maria Eugênia, os impactos da tecnologia não podem ser tratados de forma simplista. A inteligência artificial pode trazer benefícios, modernizar processos e melhorar determinadas rotinas. O problema, segundo ela, aparece quando esses sistemas passam a substituir trabalhadores, controlar atividades e influenciar decisões sem que os bancários e suas entidades tenham acesso aos critérios utilizados.
“Os impactos da tecnologia são positivos, a gente não pode negar. Porém, para o trabalhador bancário em específico, eles representam um risco acentuado, porque há uma real substituição de postos de trabalho pela automação”, alertou.
A advogada apontou que o setor já convive com um cenário de fechamento de agências, demissões em massa e maior dependência de sistemas automatizados. Para ela, a categoria precisa discutir não apenas o uso da tecnologia, mas também os limites de sua aplicação nas relações de trabalho. O alerta principal envolve a falta de transparência. Sistemas de inteligência artificial e algoritmos podem ser usados para definir metas, distribuir tarefas, medir rendimento, avaliar produtividade e até sugerir desligamentos. O problema é que, muitas vezes, os trabalhadores não sabem quais dados alimentam esses sistemas nem quais critérios orientam as decisões. 
“Estamos diante de um cenário de fechamento de agências, de demissões em massa e de fragilidade dos sistemas de controle da atividade bancária, porque eles estão sendo feitos pelos algoritmos”, disse Maria Eugênia.
Para a especialista, a ausência de normas específicas sobre o controle algorítmico do trabalho humano aumenta a responsabilidade da negociação coletiva. Ela afirmou que ainda não há uma regulamentação infraconstitucional capaz de enfrentar, de forma direta, os impactos da automação sobre o trabalho bancário.Durante a palestra, Maria Eugênia apresentou propostas de cláusulas para fortalecer a participação das entidades no controle da automação e no acompanhamento dos efeitos da inteligência artificial sobre os trabalhadores.
Entre as sugestões estão a participação sindical no gerenciamento de riscos psicossociais, o acesso a informações sobre comandos usados por sistemas de IA, a fiscalização de critérios de avaliação de desempenho e a presença das entidades em processos de demissão que ultrapassem dois trabalhadores por agência. A lógica, segundo ela, é impedir que decisões automatizadas avancem sem controle, especialmente quando afetam emprego, saúde mental, produtividade e estabilidade profissional. O recado aos dirigentes sindicais foi direto. A categoria não pode apenas observar a transformação digital. Precisa disputar regras, exigir transparência e construir mecanismos de proteção antes que os impactos se tornem irreversíveis.
“Se preocupem. Tenham um olhar focado na participação ativa da entidade na regulação da automação. Ninguém melhor do que quem sofre as dores para desenvolver o remédio”, concluiu.
