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Uso de cheque e transferências via DOC diminui, mas ainda tem público cativo

postado Assessoria Igor

Cheques e transferências via DOC (Documento de Ordem de Crédito) podem não fazer mais parte da vida de muitos brasileiros —há jovens que nem sequer sabem o que representam—, mas os dois meios de pagamento ainda têm público cativo.

De acordo com o Banco Central, foram 12,2 milhões de cheques compensados somente em abril deste ano. Já o DOC foi usado 2,4 milhões de vezes no mesmo mês.

Em 2022, foram 202,8 milhões de cheques compensados, o que consolida uma tendência de queda ao longo dos anos. Na comparação com 2021, quando as compensações somaram 317 milhões, houve redução de 36%.

Em 1995, começo da série histórica do BC, 3,3 bilhões de cheques foram compensados.

No caso da utilização de DOC/TED (Transferência Eletrônica Disponível) em 2022, foram 65 milhões de operações, número 42% menor do que o registrado no ano anterior.

O DOC foi criado há mais tempo e tem mais limitações. O volume máximo de transferência é de R$ 4.999,99 e demora um dia para chegar na conta de destino. Já a TED permite valores maiores e cai no mesmo dia se for feito antes das 17h. As duas modalidades podem ser usadas na boca do caixa ou nos aplicativos dos bancos.

Em volumes financeiros movimentados, a redução não se dá na mesma escala. No caso de cheques, a redução do montante foi de 4% entre 2021 e 2022, enquanto no uso de DOC/TEDs houve queda mais relevante, de 26,5%.

Em ambos os casos, apesar de menos transferências estarem sendo feitas, o valor médio da transação cresceu. Isso se deve, em parte, a um receio que uma parcela da população ainda tem em fazer transferências de grande valor com o Pix, de acordo com especialistas consultados pela reportagem.

Ao realizar essas operações os adeptos abrem mão da instantaneidade do Pix para usar um DOC, que demora um dia para chegar, ou um cheque, que precisa ser levado fisicamente ao banco ou ao terminal para ser compensado e corre o risco de não ser aceito por divergência na assinatura.

Parece muito, mas a título de comparação vale apontar que o Pix, o primeiro lugar, foi utilizado 2,9 bilhões de vezes em abril. O distante segundo lugar é o boleto, usado 326,3 milhões de vezes.

Mesmo com o Pix dominando largamente o cenário, o cheque encontra seu lugar em alguns públicos e algumas transações específicas.

A especialista em finanças da CNDL (Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas) Merula Borges aponta que uma pesquisa da entidade indicou que o perfil dos principais usuários de cheques são mulheres de classe A e B entre 18 e 34 anos.

“A pesquisa não apontou com o que elas gastam, mas eu tenho um palpite porque tenho uma experiência com isso. As últimas vezes em que usei foi para pagar um tratamento médico. Ele cobrava o mesmo valor à vista no parcelamento com cheque”, diz.

Esse é o principal uso que Pedro Eduardo Batista, dono de uma franquia de curso de inglês em Brasília, observa. Alguns de seus clientes, na maioria mais velhos, usam essa modalidade para parcelar o pagamento.

“Apesar do risco, às vezes é vantajoso o parcelamento no cheque, mas realmente é uma minoria hoje em dia”, diz. Ele é sócio no negócio há mais de dez anos e percebeu a mudança na forma de pagamento ao longo do tempo.

“Antes o pagamento no cheque era muito mais comum, mas com o tempo e, principalmente, com o Pix ele foi sumindo”, analisou.

A possibilidade de parcelar uma compra sem passar pelo cartão de crédito também foi apontada pelo professor de engenharia da Produção da Universidade de Brasília Ricardo Paixão.

“Alguns tipos de contrato favorecem cheque, alguns nichos. Academia e coisas similares priorizam o cheque porque querem fidelizar o cliente em plano longo e cheque é mais barato do que cartão de crédito. No cheque você pode parcelar em 24 vezes, no cartão é bem menos”, disse.

Essa possibilidade de parcelar pagamentos com o cheque também é interessante para quem, por alguma razão, não consegue acesso ao cartão de crédito.

Esse é o caso do executivo de uma empresa em recuperação judicial que conversou com a reportagem sob a condição do anonimato.

Pela situação da companhia, ela não consegue crédito, o que é um problema porque precisa parcelar pagamentos para adequar as saídas de recursos ao fluxo de caixa. A solução é utilizar o cheque, que acaba funcionando como uma nota promissória.

Paixão aponta que há também um uso residual na utilização de cheques: pessoas mais velhas que não querem utilizar modos mais recentes de transferência. “Isso sempre vai existir em qualquer tipo de tecnologia, mas não explica as milhões de transações que tem no mês”, afirma.

Já o DOC é tão pouco utilizado que deixará de ser oferecido pelas instituições que integram a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) a partir de fevereiro do ano que vem, depois de quase 40 anos em funcionamento.

Mas quem vai ficar na mão com essa decisão? Paixão aponta que a modalidade ainda é utilizada em sistemas antigos de pagamento de empresas.

Como o sistema foi feito há muito tempo, o DOC era a opção mais moderna. Surgiram outras opções, mas remodelar a tecnologia dava trabalho e ela foi ficando —esse tipo de situação é mais comum do que se pensa; até 2020, por exemplo, o NHS, o SUS britânico, era um dos maiores compradores de máquinas de fax do mundo.

A competição entre os meios de pagamento continua feroz e, para Paixão, um outro velho conhecido do brasileiro, o boleto, está com os dias contados.

“Eu acredito que com o direcionamento que o BC está dando, o Pix deve tomar, em um futuro próximo, o lugar da TED e eventualmente do boleto”, projetou.

Isso vai acontecer, acredita Paixão, com o Pix saindo dos aplicativos dos bancos e passando para outros meios.

“Além do WhatsApp há outros pesos pesados se credenciando nisso, como o Google. É factível em um exercício de futurologia imaginar que em um futuro próximo o Pix vai ficar cada vez mais conveniente e, em algo como cinco anos, substituir o boleto e a TED”, avalia.

Fonte: Folha de S.Paulo

www.contec.org.br

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